Crónica de Moura - "4 horas, 4!"


Quatro horinhas... nem mais, nem menos.

Convidava o céu azul, entre uma nuvem ou outra mais feia, a que houvesse correspondência por parte da afición a um apelativo e sério concurso de ganadarias, pouco em uníssono com o cartel.
Dois terços generosos de público, uma sentida homenagem ao Dr. Alberto Fernandes e quatro intermináveis horas para declarar-se um toiro menos mau. 

O Prudêncio abreplaza, negro e com 580kg, de cara aberta e colocada, foi manso e difícil. Sempre pendente do movimento entre tábuas, era ofensivo no capote (ainda que tenha melhorado ligeiramente com o bom trato), desligava completamente da lide e quando despertava tornava-se ingrato e custoso de lidar, sem facilitar colocação e investindo sempre por alto e sem selo. 
Entre ferros que não ficavam, entre outros de má colocação, a prestação de Rui Salvador foi também ela penosa e sem conteúdo para transcender. 
Na pega foi brusco e criava dificuldade com derrotes sem orientação e incómodos, tendo pegado o Cabo do Real de Moura, Valter Rico, à quarta tentativa.

Negro mulato listón, comprido, com 620kg foi o toiro de Jorge Carvalho. Bem feito de cara e estreito de sienes, teve uma primeira fase em que perseguiu sem problema, ainda que com mais boyantía do que verdadeira codicia, carecendo de raça. Filipe Gonçalves entrou disposto, mas nem sempre lhe correu tudo de feição, mais envolvente e brioso na brega, mas desajustado e sem assertividade nas sortes. Entre toques e passagens em falso, o pouco que o toiro tinha, rachou e fica apenas o par final. 
Nova vida ganhou na pega, arrancando com pata mas metendo a cara perfeitamente e apenas a pedir tudo bem feito pelo cara e depois pelo restante grupo... entre tentativas em que claudicaram as ajudas, outras o cara, valorize-se uma boa quarta tentativa (por parte do cara, que não foi referido o nome e após tentar saber o mesmo ainda não obtive qualquer resposta) em que aguentou uma viagem longa e em solitário na cara do toiro. Ao quinto intento consumou.

O terceiro tinha a marca da casa Veiga Teixeira, com quatro anos e 585kg, era sério e rematado, verdadeiramente cuajado. Negro bragado meano, cornicurto e cabeça pequena, foi um toiro que transmitiu de início mas que se foi revelando voluntarioso e nobre, pouco incomodativo e por isso sem causar problemas... e isso foi o maior defeito do Teixeira, não ter despertado a casta da casa e faltar-lhe transmissão para poder ter outra nota, sendo que os terrenos que ele pedira que lhe pisassem, não foram os que Miguel Moura consentiu, e por isso, não o conseguiu potenciar a mais.
A nível geral, fiquei com a sensação que houve pouca lide, e num concurso isso é essencial. Cravou com relativa rapidez os compridos, e nos curtos, só nos dois últimos houve intenção de ajustar mais o embroque, até então, completamente fora de tom. Guilherme Santos, dos Amadores de Beja, esteve como se pedia e aguentou bem uma investida humilhada e com pata, com o grupo muito bem e coeso a ajudar no primeiro encontro.

O Pinto Barreiros saiu em quarto, com quatro anos cumpridos e 530kg, castanho escuro lucero e listón, com carita sevillana e hechuras para não falhar... mas falhou. Denotando pouca força, andou sempre flojito e a perder a condição a cada passagem do cavaleiro. Nunca passou do trote e nos médios sentia-se cómodo, desligando do seu redor (pareceu-me em várias ocasiões malvisto do lado esquerdo). Rui Salvador notou-se mais capaz do que no seu primeiro, mas não sei se por falta de uma montada que lhe dê mais confiança, se por falta de um triunfo que lhe dê moral, ou se por falta de mais sorte nos sorteios, não manteve um ritmo digno do seu estatuto. Um comprido e um curto são os dois momentos que ficam na retina, perante um restante cenário de tentativas infrutíferas de gerar emoção. 
Gonçalo Borges, jovem valor do Real de Moura, esteve diligente com o toiro, falando-lhe sempre muito e tentando ao máximo prender-lhe a atenção, com um cite salutar. Saiu brusco e a derrotar de forma desconcertante, ora a mangada era para cima ora para baixo, e o forcado aguentou valoroso de braços com o grupo a conseguir fechar a pega à primeira. 


Com 560kg, o Atanásio Fernández de Fernades de Castro estava muito no tipo da casa, sério por diante e de peito largo, alto e com maior proporção visto de frente do que pelos quartos traseiros. 
Aguentou uma lide longa (!), acometendo enclasado e sem nunca se fazer rogado a provocações. Pareceu algo débil a mover-se, como se diminuído estivera, mas na verdade, e dentro dessa aparência, teve mobilidade e entrega suficiente para ser de triunfo... curiosamente, tal como o Teixeira, faltou-lhe emoção, porque faltou a casta da casa!
Filipe Gonçalves andou preocupado em lidar e motivar o oponente, e com ladeios ajustados andou a gosto e a cativar o conclave, sem que nos ferros desse resposta ao que de bem havia feito. O toiro tinha raça q.b. quando sentia o ferro, e aproveitando essa característica, mais emotividade poderiam ter as reuniões... mas Filipe insistiu no quiebro e as investidas desconcertavam e a jurisdição era de lança. Na terceira bandarilha decidiu mudar de rumo e de frente conseguiu voltar a cativar, com dois curtos mais agradáveis. Até aí, Castro de boca fechada e aguentar uma barbaridade... até que houve insistência para mais ferros (numa altura em que a corrida estava num estado de saturação por frio, duração, interesse, etc), que tardaram em ser cravados e já pouco acrescentaram ao que fez.
Pelos Amadores de Monsaraz, André Mendes fechou-se de maneira impecável e o toiro proporcionou-lhe boa viagem, consumando à primeira tentativa.

Da Adema veio o Canas Vigouroux... do Emaús, perdão! Com todo o tipo de Baltasar Ibán, alto e aleonado sem excessividade, ligeiramente tocado no pitón direito, era um pavo dono de um porte altivo e sério. Foi um manso de cátedra, sem casta para lhe fazer mover a imponente romana, mas com um génio e fiereza incomum... As abordagens do cavalo não lhe interessavam, e só os capotes lhe provocavam as investidas mais violentas, nas quais partia sempre com muita pata e ímpeto e sempre a meter-se por dentro. 
Miguel Moura andou valente com ele, aguentou e fez o que pode... ainda que tenha sido pouco. Bom curto o terceiro a vencer bem o pitón e o resto foi vontade do toureiro em suplantar as dificuldades.
Adivinha-se trabalho árduo na pega e o cabo dos Amadores de Beja, Miguel Sampaio, prontificou-se para a cara do Canas. 
Relaxado e com a qualidade do costume na primeira tentativa, o toiro foi de uma aspereza e dureza tal que desfeiteou com violência o forcado. Nos restantes intentos notou-se menos confiado, ainda assim, manteve braços e valor para consumar à quarta. 

O Veiga Teixeira, que não foi mau mas não foi o menos mau, venceu o prémio Apresentação e o Castro o prémio Bravura.

Dirigiu a corrida o Sr. Agostinho Borges, podendo ser mais duro em algumas decisões e atribuições que comprometeram ontem a duração do espectáculo, sem que de mais se tenham notado algo a registar, numa tarde abrilhantada a nível mediano pela Banda Amarelejense.

Pedro Guerreiro





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